sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A lua é Flicts!

Ontem fui ao teatro com os colegas da faculdade assistir a uma peça sobre Dom Quixote, um dos livros que estamos lendo neste semestre, mas o assunto aqui não é a faculdade, tampouco Dom Quixote. Na ida para o teatro, eu comentava com um amigo sobre uma peça que assisti quando estava na 3ª série, isso lá em 1991. Não lembro como se chamava, mas lembro de cada detalhe, da gente indo para o teatro de mãos dadas com a professora, do meu copão cheio de suco de laranja e do meu mirabel (waffer, para quem não é do tempo do mirabel), da nossa chegada, do palco, das cortinas. Eram oito atores, sete representavam as cores do arco-íris e o outro uma cor chamada Flicts, que era triste e sozinha, pois não se parecia com nada no mundo. Flicts é o nome de um livro do escritor Ziraldo, certamente a peça que eu assisti há 18 anos atrás foi inspirada neste livro. Eu conhecia algumas obras dele, mas nunca tinha lido Flicts. A lembrança daquela peça das cores, provocada por essa ida ao teatro, me fez procurar Flicts, e eu achei.

Para quem não conhece...

Era uma vez uma cor muito rara e muito triste que se chamava Flicts, não tinha a força do Vermelho, não tinha a imensa luz do Amarelo, nem a paz que tem o Azul. Era apenas o frágil, feio e aflito Flicts. Tudo no mundo tem cor, tudo é Azul, Rosa, Vermelho ou Amarelo, quase tudo tem seu tom Roxo, Violeta ou Lilás, mas não existe no mundo nada que seja Flicts, nem a sua solidão. Flicts nunca teve par, nunca teve um lugarzinho num espaço bicolor, e tricolor muito menos, pois três sempre foi demais. Não, não existe no mundo nada que seja Flicts. Na escola, a caixa de lápis cheia de lápis de cor de colorir paisagem, casinha, cerca e telhado, árvore, flor e caminho, laço e ciranda, não tem lugar para Flicts. Quando volta a primavera e o parque todo e o jardim todo se cobrem de cores, nenhuma cor ou ninguém quer brincar com o pobre Flicts.
Um dia, ele viu no céu, depois da chuva Cinzenta, a turma toda feliz saindo para o recreio e se chegou para brincar:
- Deixa eu ficar na berlinda? Deixa eu ser o cabra-cega? Deixa eu ser o cavalinho? Deixa que eu fique no pique? Mas ninguém olhou para ele, só disseram frases curtas, cada um por sua vez:
- Sete é um número tão bonito! Disse o Vermelho.
- Não tem lugar para você! Disse o Laranja.
- Vai procurar um espelho! Disse o Amarelo.
- Somos uma grande família! Disse o Verde.
- Temos um nome a zelar! Disse o Azul.
- Não quebre uma tradição! Disse o Azul-anil.
- Por favor, não vá querer quebrar a ordem natural das coisas! Disse o Violeta. E as sete cores se deram as mãos e à roda voltaram, e voltaram a girar, a girar, girar, girar, a girar, girar, girar. Mais uma vez deixaram o frágil, feio e aflito Flicts na sua branca solidão. E Flicts não se emendava, não era bom ser tão só e, um dia, foi procurar um trabalho. "Será que eu não posso ter um cantinho ou uma faixa em escudo ou em brasão ou em bandeira ou em estandarte?"
- Não há vagas! Disse o Azul.
- Não há vagas! Sussurrou o Branco.
- Não há vagas! Berrou o Vermelho.
Mas existem mil bandeiras, trabalho para tanta cor, e Flicts correu o mundo em busca do seu lugar, Flicts correu o mundo. Pelos países mais bonitos, pelas terras mais distantes, pelas terras mais antigas, pelos países mais jovens. E nem mesmo as terras mais jovens, as bandeiras mais novas e as bandeiras todas que ainda vão ser criadas se lembraram de Flicts ou pensaram em Flicts para ser sua cor, não tinham para ele uma estrela, uma faixa, uma inscrição. Nada no mundo é Flicts, ou, pelo menos, quer ser. O céu, por exemplo, é Azul, e é todo do Azul o mar. "Mas quem sabe o mar, quem sabe?" Pensa Flicts agitado. "Afinal, o mar é tão inconstante. É Cinzento se o dia é Cinzento, como um imenso lago de chumbo, e muda com o sol ou a chuva, Negro salgado ou Vermelho". O mar é tão inconstante, tem tantas cores o mar, mas para o pobre Flicts suas cores não dão lugar. E o pobre Flicts procura alguém para ser seu par, um companheiro, um amigo, um irmão complementar, em cada praça ou jardim, em cada rua e esquina: "Eu posso ser seu amigo?"
- Não! Avisa o Vermelho.
- Espera! Diz o Amarelo.
- Vai embora! Manda o Verde. E mais uma vez sozinho o pobre Flicts se vai.
Um dia Flicts parou, e parou de procurar. Olhou para longe, bem longe, e foi subindo, subindo. E foi ficando tão longe, e foi subindo e sumindo. E foi sumindo e sumindo e sumiu. Sumiu que o olhar mais agudo não podia adivinhar para onde tinha ido, para onde tinha fugido, em que lugar se escondera o frágil, feio e aflito Flicts.
Hoje, com o dia claro, mesmo com o sol muito alto, quando a lua vem de dia brigar com o brilho do sol, a lua é Azul. E quando a lua aparece nos fins das tardes de outono do outro lado do mar, como uma bola de fogo, ela é redonda e Vermelha. Nas noites muito claras, quando a noite é toda dela, a lua é de prata e ouro, enorme bola Amarela. Mas ninguém sabe a verdade, a não ser os astronautas, que de perto, de pertinho, a lua é Flicts!

Eu AMEI! Para terminar, só mesmo o comentário de Carlos Drummond de Andrade:

"O mundo não é uma coleção de objetos naturais, com suas formas respectivas, testemunhadas pela evidência ou pela ciência; o mundo são cores. Tudo é cor. Aprendo isso, tão tarde, com Ziraldo. Ou mais propriamente, com Flicts. Quem é Flicts? Flicts é a iluminação - afinal brotou a palavra - mais fascinante de um achado: a cor, muito além do fenômeno visual, é estado de ser, é a própria imagem. Desprende-se da faculdade de simbolizar, revela-se aquilo em torno do qual os símbolos circulam, voejam, volitam, esvoaçam - fly, flit, fling - no desejo de encarnar-se. Mas para que símbolos, se captamos o coração da cor? Ziraldo realizou a façanha em seu livro".

domingo, 4 de outubro de 2009

Uma coisa que não tem nome...

... essa coisa é o que somos.

Um motorista, parado no sinal, subitamente se descobre cego. É o primeiro caso de uma "treva branca" que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos vão se descobrir reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas.
Ensaio Sobre a Cegueira é a fantasia de um autor que nos faz lembrar "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam". José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios [...].
Cada leitor viverá uma experiência imaginativa única. Num ponto onde se cruzam literatura e sabedoria, José Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada leitor, face à pressão dos tempos e ao que se perdeu [...].

O filme conta a história de uma inédita e inexplicável epidemia de cegueira que se abate sobre uma cidade não identificada. Tal "cegueira branca" manifesta-se primeiro em um homem no trânsito e, lentamente, espalha-se pelo país. Aos poucos, todos acabam cegos e reduzidos a meros seres lutando por suas necessidades básicas, expondo seus instintos primários. Ao mesmo tempo em que vemos o colapso da civilização, um grupo de pessoas tenta reencontrar a humanidade perdida. A história torna-se não só um registro da sobrevivencia das multidões cegas, mas também dos seus mundos emocionais e da dignidade que tentam manter. Mais do que olhar, importa reparar no outro. Só dessa forma o homem se humaniza novamente.

Mesmo baseado no livro de José Saramago, é certo que o filme não é tão rico em detalhes como a obra do escritor, imagem e escrita são dois códigos diferentes, ainda assim, é comovente. Quanto ao livro, sem palavras, emocionante! Sempre que leio um livro, seja ele qual for, tenho mania de sublinhar (de lápis e bem retinho) os trechos mais significativos para mim, aqueles que me tocam de alguma forma, seja na vida pessoal ou apenas como reflexão em geral, com Ensaio Sobre a Cegueira não foi diferente. Deixo aqui alguns deles:

"... tão longe estamos do mundo que não tarda que comecemos a não saber quem somos..."

"Os bons ou os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-los, para congratular-nos ou pedir perdão..."

"O fundamental é não perdermos o respeito por nós próprios..."

"... no tempo remoto em que as pessoas tinham olhos para ver."

"... a cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança."

"... como a vida é frágil, se a abandonam."

"Não se perca, não se deixe perder..."

"... começar a ter olhos..."

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Derecho al Delirio

video

Direito ao Delírio

"Embora não possamos adivinhar o tempo que será, temos, sim, o direito de imaginar o que queremos que seja. Em 1948 e em 1976 as Nações Unidas proclamaram extensas listas de direitos humanos, mas a imensa maioria da humanidade só tem o direito de ver, ouvir e calar. Que tal começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar? Que tal delirarmos um pouquinho? Vamos fixar o olhar num ponto além da infâmia para adivinhar outro mundo possível:

- o ar estará livre de todo o veneno que não vier dos medos humanos e das humanas paixões;
- nas ruas, os automóveis serão esmagados pelos cães;
- as pessoas não serão dirigidas pelos automóveis, nem programadas pelo computador, nem compradas pelo supermercado, nem olhadas pela televisão;
- a televisão deixará de ser o membro mais importante da família e será tratado como o ferro de passar e a máquina de lavar roupa;
- as pessoas trabalharão para viver, ao invés de viver para trabalhar;
- será incorporado aos códigos penais o delito da estupidez, cometido por aqueles que vivem para ter e para ganhar, ao invés de viver apenas por viver, como canta o pássaro sem saber que canta e como brinca a criança sem saber que brinca;
- em nenhum país serão presos os jovens que se negarem a cumprir o serviço militar, mas irão para a cadeia os que desejarem prestá-lo;
- os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem chamarão de qualidade de vida a quantidade de coisas;
- os cozinheiros não acreditarão que as lagostas gostam de ser fervidas vivas;
- os historiadores não acreditarão que os países gostam de ser invadidos;
- os políticos não acreditarão que os pobres gostam de comer promessas;
- ninguém acreditará que a solenidade é uma virtude e ninguém levará a sério aquele que não for capaz de deixar de ser sério;
- a morte e o dinheiro perderão seus mágicos poderes e nem por falecimento ou fortuna um canalha será transformado em virtuoso cavalheiro;
- ninguém será considerado herói ou tolo por fazer o que acha justo em lugar de fazer o que mais lhe convém;
- o mundo já não estará em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza, e a indústria militar não terá outra alternativa senão declarar-se em falência;
- a comida não será uma mercadoria e nem a comunicação um negócio, porque a comida e a comunicação são direitos humanos;
- ninguém morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão;
- os meninos de rua não serão tratados como lixo, porque não haverá meninos de rua;
- os meninos ricos não serão tratados como se fossem dinheiro, porque não haverá meninos ricos;
- a educação não será privilégio de quem possa pagá-la;
- a polícia não será o terror de quem não possa comprá-la;
- a justiça e a liberdade, irmãs siamesas, condenadas a viver separadas, voltarão a unir-se, bem juntinhas, ombro a ombro;
- uma mulher negra será presidente do Brasil, e outra mulher negra será presidente dos Estados Unidos da América, uma mulher índia governará a Guatemala e outra mulher índia o Perú;
- na Argentina, as loucas da Plaza de Mayo serão um exemplo de saúde mental, pois se negaram a esquecer nos tempos da amnésia obrigatória;
- a Igreja ditará outro mandamento: "Amarás a natureza, da qual fazes parte";
- serão reflorestados os desertos do mundo e os desertos da alma;
- os desesperados serão esperados e os perdidos serão encontrados, pois eles são os que se desesperaram de tanto esperar e os que perderam de tanto procurar;
- seremos compatriotas e contemporâneos de todos os que tenham aspiração de justiça e de beleza, tenham nascido onde tenham nascido e tenham vivido quando tenham vivido, sem que importem nem um pouco as fronteiras do mundo e do tempo;
- a perfeição continuará sendo um aborrecido privilégio dos deuses, e neste mundo confuso e desagradável, cada noite será vivida como se fosse a última e cada dia como se fosse o primeiro".

(De pernas para o ar: a escola do mundo avesso - Eduardo Galeano - 1999)

domingo, 20 de setembro de 2009

Orgulho!















Como a aurora precursora
Do farol da divindade
Foi o 20 de Setembro
O precursor da liberdade

Mostremos valor constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra

De modelo a toda Terra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra

Mas não basta pra ser livre
Ser forte, aguerrido e bravo
Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo

Mostremos valor constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra

De modelo a toda Terra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra

Rio Grande do Sul AMADO!!

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

preconceito linguístico, o que é, como se faz

Parece incrível que, depois de tanto tempo em vigor na língua falada no Brasil, esta regra de uso do pronome SE ainda seja rejeitada pelos gramáticos prescritivistas. Eles continuam agindo como o professor Aldrovando Cantagalo, do conto O colocador de pronomes, de Monteiro Lobato, publicado em 1924. Ao ver uma placa com os dizeres "Ferra-se cavalos", o histérico gramático tentou explicar ao ferreiro que o verbo deveria estar no plural porque o sujeito da frase era cavalos, e foi obrigado a receber esta aula perfeita de sintaxe brasileira:

- Vossa Senhoria me perdoe, mas o sujeito que ferra os cavalos sou eu, e eu não sou plural. Aquele SE da tabuleta refere-se cá a este seu criado.

Alguém já viu um cavalo pôr ferraduras em si mesmo? Talvez o professor Aldrovando Cantagalo em seus delírios normativistas, que ainda acometem muita gente hoje em dia!

(preconceito linguístico, o que é, como se faz - Marcos Bagno)

Embora minha área de trabalho seja o espanhol, não posso deixar de comentar este livro, do qual lembrei hoje, revisando as matérias de língua portuguesa do primeiro semestre da faculdade. Tive a oportunidade de assistir a uma palestra de Marcos Bagno na Semana Acadêmica do ano passado, entitulada "Variação Linguística: da Teoria à Prática Pedagógica", sem dúvida sensacional!