Ontem fui ao teatro com os colegas da faculdade assistir a uma peça sobre Dom Quixote, um dos livros que estamos lendo neste semestre, mas o assunto aqui não é a faculdade, tampouco Dom Quixote. Na ida para o teatro, eu comentava com um amigo sobre uma peça que assisti quando estava na 3ª série, isso lá em 1991. Não lembro como se chamava, mas lembro de cada detalhe, da gente indo para o teatro de mãos dadas com a professora, do meu copão cheio de suco de laranja e do meu mirabel (waffer, para quem não é do tempo do mirabel), da nossa chegada, do palco, das cortinas. Eram oito atores, sete representavam as cores do arco-íris e o outro uma cor chamada Flicts, que era triste e sozinha, pois não se parecia com nada no mundo. Flicts é o nome de um livro do escritor Ziraldo, certamente a peça que eu assisti há 18 anos atrás foi inspirada neste livro. Eu conhecia algumas obras dele, mas nunca tinha lido Flicts. A lembrança daquela peça das cores, provocada por essa ida ao teatro, me fez procurar Flicts, e eu achei.Para quem não conhece...
Era uma vez uma cor muito rara e muito triste que se chamava Flicts, não tinha a força do Vermelho, não tinha a imensa luz do Amarelo, nem a paz que tem o Azul. Era apenas o frágil, feio e aflito Flicts. Tudo no mundo tem cor, tudo é Azul, Rosa, Vermelho ou Amarelo, quase tudo tem seu tom Roxo, Violeta ou Lilás, mas não existe no mundo nada que seja Flicts, nem a sua solidão. Flicts nunca teve par, nunca teve um lugarzinho num espaço bicolor, e tricolor muito menos, pois três sempre foi demais. Não, não existe no mundo nada que seja Flicts. Na escola, a caixa de lápis cheia de lápis de cor de colorir paisagem, casinha, cerca e telhado, árvore, flor e caminho, laço e ciranda, não tem lugar para Flicts. Quando volta a primavera e o parque todo e o jardim todo se cobrem de cores, nenhuma cor ou ninguém quer brincar com o pobre Flicts.
Um dia, ele viu no céu, depois da chuva Cinzenta, a turma toda feliz saindo para o recreio e se chegou para brincar:
- Deixa eu ficar na berlinda? Deixa eu ser o cabra-cega? Deixa eu ser o cavalinho? Deixa que eu fique no pique? Mas ninguém olhou para ele, só disseram frases curtas, cada um por sua vez:
- Sete é um número tão bonito! Disse o Vermelho.
- Não tem lugar para você! Disse o Laranja.
- Vai procurar um espelho! Disse o Amarelo.
- Somos uma grande família! Disse o Verde.
- Temos um nome a zelar! Disse o Azul.
- Não quebre uma tradição! Disse o Azul-anil.
- Por favor, não vá querer quebrar a ordem natural das coisas! Disse o Violeta. E as sete cores se deram as mãos e à roda voltaram, e voltaram a girar, a girar, girar, girar, a girar, girar, girar. Mais uma vez deixaram o frágil, feio e aflito Flicts na sua branca solidão. E Flicts não se emendava, não era bom ser tão só e, um dia, foi procurar um trabalho. "Será que eu não posso ter um cantinho ou uma faixa em escudo ou em brasão ou em bandeira ou em estandarte?"
- Não há vagas! Disse o Azul.
- Não há vagas! Sussurrou o Branco.
- Não há vagas! Berrou o Vermelho.
Mas existem mil bandeiras, trabalho para tanta cor, e Flicts correu o mundo em busca do seu lugar, Flicts correu o mundo. Pelos países mais bonitos, pelas terras mais distantes, pelas terras mais antigas, pelos países mais jovens. E nem mesmo as terras mais jovens, as bandeiras mais novas e as bandeiras todas que ainda vão ser criadas se lembraram de Flicts ou pensaram em Flicts para ser sua cor, não tinham para ele uma estrela, uma faixa, uma inscrição. Nada no mundo é Flicts, ou, pelo menos, quer ser. O céu, por exemplo, é Azul, e é todo do Azul o mar. "Mas quem sabe o mar, quem sabe?" Pensa Flicts agitado. "Afinal, o mar é tão inconstante. É Cinzento se o dia é Cinzento, como um imenso lago de chumbo, e muda com o sol ou a chuva, Negro salgado ou Vermelho". O mar é tão inconstante, tem tantas cores o mar, mas para o pobre Flicts suas cores não dão lugar. E o pobre Flicts procura alguém para ser seu par, um companheiro, um amigo, um irmão complementar, em cada praça ou jardim, em cada rua e esquina: "Eu posso ser seu amigo?"
- Não! Avisa o Vermelho.
- Espera! Diz o Amarelo.
- Vai embora! Manda o Verde. E mais uma vez sozinho o pobre Flicts se vai.
Um dia Flicts parou, e parou de procurar. Olhou para longe, bem longe, e foi subindo, subindo. E foi ficando tão longe, e foi subindo e sumindo. E foi sumindo e sumindo e sumiu. Sumiu que o olhar mais agudo não podia adivinhar para onde tinha ido, para onde tinha fugido, em que lugar se escondera o frágil, feio e aflito Flicts.
Hoje, com o dia claro, mesmo com o sol muito alto, quando a lua vem de dia brigar com o brilho do sol, a lua é Azul. E quando a lua aparece nos fins das tardes de outono do outro lado do mar, como uma bola de fogo, ela é redonda e Vermelha. Nas noites muito claras, quando a noite é toda dela, a lua é de prata e ouro, enorme bola Amarela. Mas ninguém sabe a verdade, a não ser os astronautas, que de perto, de pertinho, a lua é Flicts!
Eu AMEI! Para terminar, só mesmo o comentário de Carlos Drummond de Andrade:
"O mundo não é uma coleção de objetos naturais, com suas formas respectivas, testemunhadas pela evidência ou pela ciência; o mundo são cores. Tudo é cor. Aprendo isso, tão tarde, com Ziraldo. Ou mais propriamente, com Flicts. Quem é Flicts? Flicts é a iluminação - afinal brotou a palavra - mais fascinante de um achado: a cor, muito além do fenômeno visual, é estado de ser, é a própria imagem. Desprende-se da faculdade de simbolizar, revela-se aquilo em torno do qual os símbolos circulam, voejam, volitam, esvoaçam - fly, flit, fling - no desejo de encarnar-se. Mas para que símbolos, se captamos o coração da cor? Ziraldo realizou a façanha em seu livro".




